Consciência Negra e a criança



"Ó que coisa bonita! Deus Pai Libertador criar negra cor. O que coisa bonita! ". Ó que coisa bonita relembrar no mês de novembro o herói brasileiro Zumbi dos Palmares, símbolo de resistência e de liberdade, levantando alguns pontos de reflexão para a Infância e Adolescência Missionária (IAM). Infelizmente ainda não é possível festejar integralmente, porque ainda convivemos com situações de racismo e desigualdades. Comemoramos no dia 20 de novembro, o Dia Nacional da Consciência Negra fazendo memória junto às organizações comunitárias que resistiram a anos e anos de exploração.

As comunidades quilombolas vêm sendo reconhecidas em passos lentos pelo governo federal após a Constituição de 1988, conservando tradições e espírito comunitário à luz da história dos antepassados que naquele chão se organizaram.

O Reino de Deus é para todos!
Diante de uma população cuja maioria é constituída por afrodescendentes, ainda ocorre na escola uma reprodução de racismo, mascarada através de atitudes de diferenciação, transmitindo valores negativos no que se refere à sua descendência, negando a história destes pequeninos. Pequenos detalhes transmitem à criança valores tais como "ser negro é ruim", "tem o cabelo duro", ou ainda "negro é feio e cheira mal". Na situação de aprendiz, a criança não saberá diferenciar uma informação nova como algo pejorativo ou algo positivo, sem a reflexão primeira dos adultos que a cercam.

Os assessores ou educadores que lidam com crianças em situação de aprendizagem, necessitam estar atentos às questões de cunho racial que permeiam as relações entre as crianças e entre adultos e crianças, favorecendo também o acolhimento ao "diferente" como sujeito. No banquete do Deus da Vida todos são convidados, porém, o banquete é ofertado para aqueles e aquelas que vivem no seu cotidiano o projeto de vida em plenitude para todos (Mt 22, 8-14).

"É Deus quem revela quem somos!" (SI 138)
 O olhar da criança não carrega nenhum preconceito, pelo contrário, ela intenciona acolher um novo amiguinho ou amiguinha, independente da cor da sua pele. Busquemos então tratar destas questões com um "novo olhar". Um olhar anti-racista e democrático que considere a presença negra no Brasil, através da culinária, da riqueza artística expressada na dança, na música, na religiosidade, no português falado no Brasil, enfim nos nossos sonhos, nosso sangue, nossa luta por um mundo mais justo, mais democrático para todos os povos.

Passados mais de 300 anos da morte de Zumbi, mártir da resistência negra, apresentemos às nossas crianças a possibilidade de se relacionar melhor com o "diferente", tenha ele ou ela descendência africana, asiática, indígena, europeia ou tenha posição contrária à nossa. Na relação com a mulher estrangeira, Jesus acolhe o seu pedido, convidando-a a participar do Reino de Deus (Mc 7, 25-30). Como evangelizadores, procuremos "nadar na direção contrária" à lógica da sociedade que prega a divisão e a competição. Vamos construir o Reino sonhado por Deus aqui na terra? Temos um grande desafio de construí-lo com e para as nossas crianças, sem preconceitos, nem discriminação, porque a criança missionária "reconhece o que é bom da vida e da cultura dos outros povos, respeitando-os e valorizando-os" (7° Compromisso da Criança Missionária).

Sugestão para o Grupo:
Você sabia? Que por muitos anos nós brincamos e cantamos "inocentes" músicas que reproduzem uma memória negativa da nossa cultura? Dentre elas: 'chicotinho queimado', 'escravos de Jó', 'sou pobre de marre'. Conhecemos outras brincadeiras que marginalizam os afrodescendentes?

Indicações de leitura (infantis e juvenis):
-"Menina bonita do laço de fita", de Ana Maria Machado (Ed. Melhoramentos);
- "O menino marrom", de Ziraldo (Ed. Melhoramentos);
- "Em boca fechada não entra mosca", de Fátima Miguez (Ed. DCL).

De todas as crianças do mundo, sempre amigos!

Roseane de Araújo, pedagoga

FONTE: Revista Missões Missões
Novembro de 2005.

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